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Noticias

Pelo consumo consciente

25/09/2008

Helio Mattar, do Instituto Akatu, defende que temos de repensar nossa forma de consumo e assumir nosso papel de protagonista no processo de sustentabilidade.

Para o lançamento do site Compra Conscientee foi convidado como um dos primeiros entrevistados Helio Mattar, um dos mais importantes especialistas em consumo consciente da atualidade. Diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, sua voz ecoa cortante ao analisar os impactos do ato de consumo e de produção, pós-revolução industrial, da humanidade, nos dias atuais.

Estudos científicos indicam que os seres humanos estão numa verdadeira roda-vida, envolvidos na combinação de consumo e produção que resulta em resíduo de dióxido de carbono (CO2), que se acumula intensamente na atmosfera e causa os chamados gases do efeito estufa e que, por conseqüência, causam o aquecimento da Terra. Como resultado final, temos de conviver com as mudanças climáticas que colocam em xeque-mate a própria existência e que são noticiadas em volume cada vez mais intenso, partindo de todos os meios de comunicação do Planeta.

Mattar acredita que teremos de conviver com essa situação por centenas de anos e, mesmo que rompêssemos imediatamente com a forma do modelo de consumo atual, ainda assim, teríamos uma melhoria do padrão de sustentabilidade que evoluiria ao longo do tempo de maneira muito lenta. Alguns cientistas estimam que o período de recuperação do Planeta nas condições de mudanças positivas progressivas é de aproximadamente mil anos.

Os estudos dão conta de que já contabilizamos aproximadamente 30% de demanda excessiva sobre os recursos naturais do planeta em relação ao seu compasso de renovação natural. "E, se toda a população da Terra - 6,5 bilhões de pessoas - viesse a consumir como os habitantes dos países ricos, precisaríamos de quatro planetas para dar conta de todo esse consumo", exemplifica o especialista.

Livre-arbítrio

O presidente do Akatu defende que é necessário pensar, imediatamente, de que forma é possível fazer com que o consumidor seja um efetivo protagonista das suas escolhas e promova as mudanças necessárias. Mas como o consumidor deve assumir, de fato, uma escolha consciente para a aquisição de todos os itens que necessita para viver - comida, roupas, , telefone, casa, planos de saúde, móveis etc?

Ele responde: "Se o consumidor tiver a percepção de que o impacto desses atos existe e de que seu ato individual tem um potencial transformador da sociedade - meio ambiente, relações sociais e economia -, terá alta probabilidade de se envolver nesse processo e contribuir para a sustentabilidade."

Os atos de consumo estão baseados, essencialmente, na escolha, no livre arbítrio e devem ser exercidos em processos que precedem o ato da compra. Afinal, se faz necessária uma análise sobre a real necessidade do produto ou serviço, o comparativo de preços e, também, as informações acerca da empresa escolhida. Isso porque é a empresa que produz os produtos e serviços e é necessário saber quais os impactos que causa ao meio ambiente antes de entregá-los ao consumidor. O próximo passo, não menos importante, é o de buscar informações sobre como utilizar e quais as garantias do produto ou serviço. Por último, averiguar como descartará os itens que estão sendo substituídos.

O que significa ser um consumidor consciente?

Nosso entrevistado o define como uma pessoa que busca maximizar os impactos positivos e minimizar os atos de consumo sobre a sociedade e o meio ambiente. "Ele busca equilíbrio entre sua satisfação pessoal e a  sustentabilidade do planeta, lembrando que a sustentabilidade implica um modelo ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável. Isso porque, ele, consumidor, é o elemento fundamental para promover mudanças nessa equação, que é contínua no tempo e repassada de indivíduo para indivíduo."

É o consumidor quem escolhe o que comer, o que vestir, o que beber, o que dirigir e quem será seu fornecedor de crédito, de água, luz, telefone, tevê a cabo etc. Por isso, a chave para a sustentabilidade está em suas mãos e só o consumidor pode decidir o que, como, quando, por que e de quem deve comprar. Esse último item é a maior determinante dessa equação. Afinal, a empresa é o meio-fio entre a extração de matéria-prima do meio ambiente até a transformação em produtos à disposição do consumidor. 

Agenda financeira

O presidente do Akatu observa que o modelo de consumo atual está direcionado a um excesso, a um consumo como um fim em si mesmo, e não como um instrumento de bem-estar. "Esse consumo se expande numa proporção muito acima daquilo que é sustentável, seja do ponto de vista ambiental, ou social. Isso está composto e potencializado pela forma como o sistema econômico está estruturado (agenda financeira) e que leva as empresas e a publicidade a buscarem expandir enormemente o consumo para que haja volumosos retornos econômico e financeiro."

É por isso que a sustentabilidade é ameaçada em larga escala, resultado de uma verdadeira roda-viva em que o consumidor ainda não tem grande percepção de seus atos de consumo e a agenda econômica financeira pressiona as empresas para que sejam gerados retornos cada vez maiores, reforçados pela publicidade, provocando excesso de consumo.

O comportamento do consumidor

Baseado na pesquisa do Instituto Akatu " Responsabilidade Social das Empresas - a percepção do consumidor brasileiros", Mattar sinaliza três principais fatores para os atuais desafios da humanidade:

 Mudança do mercado de trabalho
Mudou e provocou uma insegurança enorme quanto à flexibilização no mercado de trabalho para o consumidor, para o cidadão comum.

Mudança do paradigma de recursos naturais
Até há 20 anos havia uma percepção de que a quantidade de recursos naturais era infinita e isso deixou de ser verdade. As pessoas passaram a perceber que os recursos naturais são finitos e se sentem ameaçadas.

Mudança no paradigma político e social
Na medida em que independentemente de classe econômica ou social estamos todos sujeitos a violência, ao terror, ao tráfico de drogas, a elementos sociais que são permeáveis e que alteram a nossa certeza com relação ao que vai se passar no futuro, essa insegurança tornou o consumidor cada vez mais sensível ao outro. Àquilo que se passa com o outro tem alta probabilidade de se passar com ele mesmo. E, nessa medida, ele, por solidariedade - egoísta, porque percebe que o que está se passando com o outro pode passar com ele, passa a agir sobre a sociedade e o meio ambiente de uma maneira mais generosa.

O que o consumidor espera das empresas

As mudanças - mercado de trabalho, paradigmas de recursos naturais e político/social - são acompanhadas no Instituto Akatu há seis anos. Mattar diz que várias pesquisas realizadas no mundo inteiro indicam que não há grande alteração na natureza do que o consumidor espera das empresas:

1 - Investimentos sociais, na forma de caridade, doação, educação, saúde e creche

2 - Tratamento de forma justa seus funcionários

3 - Geração de emprego

4 - Proteção do Meio Ambiente

Houve, no entanto, uma alteração da percepção do consumidor sobre o papel da empresa como agente social. Há seis anos, no Brasil, 34% da população dizia que era papel da grande empresa ter padrões éticos elevados e contribuir ativamente para o desenvolvimento da sociedade. Essa mesma percepção, hoje, é de 45%.

A empresa, portanto, deixa de ser vista quase que, exclusivamente, como era vista há 20 anos - um produtor de bens e de serviços e passa a ser visto como agente social. Isso é decorrente da percepção de que as empresas ganharam enorme poder nesses últimos 20 e 30 anos com a liberalização mais intensa da economia e com a globalização.

O poder do consumidor: punição e premiação

Por outro lado, a pesquisa do Akatu indica que, em termos de comportamento, duas questões dão o tom da avaliação da relação que o consumidor mantém com a empresa: punição e premiação.

Mattar afirma que as análises indicam que 15% da população brasileira já puniu as empresas pelas irresponsabilidades sociais e ambientais. No entanto, se forem considerados aqueles que pensaram em punir, mas não o fizeram o percentual duplica, vai para 30% da população. Ou seja, um em cada três brasileiros já pensou ou puniu empresas em desacordo com esse novo prisma.

Para ele, se uma em cada três pessoas exerce seu poder de punição já será extremamente significativo. "Afinal, isso permite pensar que há um processo de contágio em curso e que, muito rapidamente, se cada um convencer mais dois, teremos grande parte da população brasileira punindo empresas." No mundo esses percentuais são muito mais elevados. O campeão é a Austrália que chegou a um pico de 61% de consumidores punindo empresas pelas questões negativas sociais e ambientais. E, se juntarmos aqueles que pensaram e não fizeram, o resultado chega a 70%. O mesmo ocorre em países como os Estados Unidos, a Alemanha e a Inglaterra.

A pesquisa do Akatu mostra que a punição se dá porque os consumidores identificaram alguma ação ou alguma omissão da empresa. Ele pune quando identifica: 1) propaganda enganosa; 2) colaboração com políticos corruptos; e 3) mentiras sobre a qualidade dos produtos, especialmente no que diz respeito à saúde e segurança. Além disso, o consumidor consciente busca disseminar o conceito e a prática do consumo consciente, fazendo com que pequenos gestos de consumo realizados por um número muito grande de pessoas promovam grandes transformações.

Desafio

Helio Mattar identifica como principal desafio o de promover uma mudança de cultura da sociedade sem que isso aparente ação de ordem ou culpa. Afinal, os atos são inconscientes, e não irresponsáveis. "O ideal é que o consumidor perceba que a mudança é uma oportunidade de contribuição para o bem-estar".

Na jornada de novos conhecimentos que as pessoas estão envolvidas, não apenas as ambientais, econômicas e sociais, mas, principalmente, emocionais, é fundamental o papel da mídia. "O Compra Conscientee surge para engrossar as fileiras da conscientização e é bem-vindo como mais um indutor de transformação."

 

Fonte:http://www.compraconsciente.com.br/entrevista.asp 


 
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