Debate no Parlamento: reforma política
26/05/2009
A Secretaria de Comunicação Social da Câmara dos Deputados distribui nesta semana dois artigos sobre a reforma política. O tema é comentado pelos deputados Ronaldo Caiado (DEM-GO), que foi relator da Comissão Especial da Reforma Política, e Marcondes Gadelha (PSB-PB).
A URV do sistema eleitoral brasileiro
Ronaldo Caiado*
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Em um momento na economia, a inflação chegou a 1.000%, algo que provocou instabilidade e desconfiança na moeda brasileira. Vários planos foram criados, mas nada conseguia combater de maneira eficaz a cultura da inflação e o descrédito com a moeda. Foi preciso criarmos um processo de transição com a URV, já que todos reconheciam que comandávamos uma situação impraticável, com a moeda tida como podre para todos, brasileiros e estrangeiros. Só substituímos nossa moeda pelo Real após combater a cultura da inflação.
Hoje, com raríssimas exceções, todos reconhecem ou atestam que o atual sistema eleitoral está apodrecido, ultrapassado, que só gera escândalos e ingovernabilidade ao processo eleitoral brasileiro e aos personagens escolhidos por esse sistema. Qual o motivo da nossa iniciativa de reativar a discussão da reforma política? Porque precisamos aprovar mudanças substanciais no atual sistema eleitoral que vai desempenhar o mesmo papel da URV. Só aí vamos romper a cultura que existe no Brasil, com algumas exceções, onde as campanhas majoritárias ou proporcionais se tornam dependentes do poder financeiro; do apoio das máquinas dos governos federal, estaduais e municipais; daqueles que continuam se elegendo com dinheiro do caixa 2, composto pelo desvio de verbas do orçamento ou ainda por organizações nada republicanas.
Qual a importância do financiamento público e exclusivo de campanha? Além de ajudar no papel de URV do sistema político, romperíamos com essa prática da interferência do dinheiro nas campanhas. Os valores seriam identificados e repassados aos partidos, após as convenções partidárias. Os Tribunais Regionais Eleitorais, os juízes e o Tribunal Superior Eleitoral teriam como sair das dificuldades que têm para acompanhar nos estados e municípios os gastos de milhares de candidatos. Como a fiscalização se limitaria a pouco mais de uma dezena de partidos, seria possível punir e fechar o espaço para que os adeptos desse estilo de financiamento de campanha eleitoral com caixa 2 e máquina pública não continuem a sobreviver.
Hoje, com raríssimas exceções, todos reconhecem ou atestam que o atual sistema eleitoral está apodrecido, ultrapassado, que só gera escândalos e ingovernabilidade ao processo eleitoral brasileiro e aos personagens escolhidos por esse sistema. Qual o motivo da nossa iniciativa de reativar a discussão da reforma política? Porque precisamos aprovar mudanças substanciais no atual sistema eleitoral que vai desempenhar o mesmo papel da URV. Só aí vamos romper a cultura que existe no Brasil, com algumas exceções, onde as campanhas majoritárias ou proporcionais se tornam dependentes do poder financeiro; do apoio das máquinas dos governos federal, estaduais e municipais; daqueles que continuam se elegendo com dinheiro do caixa 2, composto pelo desvio de verbas do orçamento ou ainda por organizações nada republicanas.
Qual a importância do financiamento público e exclusivo de campanha? Além de ajudar no papel de URV do sistema político, romperíamos com essa prática da interferência do dinheiro nas campanhas. Os valores seriam identificados e repassados aos partidos, após as convenções partidárias. Os Tribunais Regionais Eleitorais, os juízes e o Tribunal Superior Eleitoral teriam como sair das dificuldades que têm para acompanhar nos estados e municípios os gastos de milhares de candidatos. Como a fiscalização se limitaria a pouco mais de uma dezena de partidos, seria possível punir e fechar o espaço para que os adeptos desse estilo de financiamento de campanha eleitoral com caixa 2 e máquina pública não continuem a sobreviver.
Com o financiamento público e exclusivo, não só os fiscais teriam acesso aos valores reais repassados, como a população poderia acompanhar em tempo real. Caso algum partido extrapolasse determinado gasto, receberia como pena a perda do registro de todos os candidatos que estariam na lista fechada para deputados, por exemplo. Oficialmente, segundo o TSE, as campanhas pelo País custaram em torno de R$ 2 bilhões. Graças ao caixa 2, esse valor real pode ter sido de R$ 10 bilhões na última eleição.
Hoje as denúncias de caixa 2 ou de uso indevido das máquinas, por mais que seja a dedicação e o empenho dos tribunais, a maioria dos políticos só serão julgados depois de cumprir todo o mandato. Ou ainda ocorrerá, como pôde se perceber com a cassação dos governadores da Paraíba e Maranhão, uma judicialização das campanhas, em que milhões de brasileiros não sabem até hoje, depois de dois anos e meio da eleição de 2006, quem será o governador em nada menos que seis estados.
Mas é bom deixar claro que o financiamento público só será viável com a aprovação da lista fechada, condição obrigatória para termos o controle e o bom uso da fiscalização do dinheiro que será repassado a cada partido. O cidadão vai poder avaliar as listas de cada partido e os candidatos inseridos nela vão se unir em busca de votos pelo partido que são filiados. Quem vai querer compor uma lista com nomes suspeitos e cheios de dúvidas? O cidadão vai votar numa lista dessas? Não. Vai sobrar espaço para representantes de cada setor da sociedade, médicos, professores, advogados, produtores, estudantes. Mulheres, índios, negros. Todos vão poder equilibrar essa divisão. Diferentemente de hoje, quando o poder financeiro ajuda e muito a eleger candidatos com fichas suspeitas.
Depois dessa transição URV, aí sim poderemos avançar para a flexibilização da lista pré-ordenada, do financiamento público e privado das campanhas, do voto distrital. Não podemos ficar inertes, como os críticos do projeto que não têm outra proposta ao atual sistema carcomido. Eles são apenas contra!
Mas é bom deixar claro que o financiamento público só será viável com a aprovação da lista fechada, condição obrigatória para termos o controle e o bom uso da fiscalização do dinheiro que será repassado a cada partido. O cidadão vai poder avaliar as listas de cada partido e os candidatos inseridos nela vão se unir em busca de votos pelo partido que são filiados. Quem vai querer compor uma lista com nomes suspeitos e cheios de dúvidas? O cidadão vai votar numa lista dessas? Não. Vai sobrar espaço para representantes de cada setor da sociedade, médicos, professores, advogados, produtores, estudantes. Mulheres, índios, negros. Todos vão poder equilibrar essa divisão. Diferentemente de hoje, quando o poder financeiro ajuda e muito a eleger candidatos com fichas suspeitas.
Depois dessa transição URV, aí sim poderemos avançar para a flexibilização da lista pré-ordenada, do financiamento público e privado das campanhas, do voto distrital. Não podemos ficar inertes, como os críticos do projeto que não têm outra proposta ao atual sistema carcomido. Eles são apenas contra!
*Ronaldo Caiado é deputado federal por Goiás e líder do Democratas e foi relator da Comissão Especial da Reforma Política. Contato: dep.ronaldocaiado@camara.gov.br
Infidelidade sem culpa
Marcondes Gadelha**
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Nada obstante, ninguém muda de partido, naqueles países. Ou pelo menos, são raríssimos os casos de defecção. Porque o parlamentar ou detentor de qualquer mandato eletivo sabe que isto há de ser fatal para sua carreira política. A chance de não se reeleger é próxima de 100%. Ele será punido pelo eleitor, pela militância ou pelo inconsciente moral coletivo, no pleito imediato.
No Brasil, sob a Carta de 46, também não havia lei de fidelidade partidária. Ainda assim, o trânsito entre UDN e PSD, os dois maiores partidos da época, era praticamente nulo. E quando acontecia, as conseqüências eram esperadas apenas na boca da urna.
Não por acaso, a fidelidade partidária foi inventada no Brasil pela ditadura militar.
A Constituição cidadã de 1988 expurgou tal instrumento e estabeleceu apenas que os estatutos devem conter normas de disciplina partidária. O seu artigo 55, que trata dos casos de perda de mandato, não elenca a infidelidade partidária entre as causas; e o artigo 25 da Lei Orgânica dos Partidos Políticos, quando trata de indisciplina, fala em perda de cargos ou funções partidárias e, jamais, em perda de mandato eletivo – muito menos, em perda automática, isto é, sem o devido processo legal.
Tal exorbitância, sobre carecer de legitimidade, ainda envolve um risco altíssimo (para não dizer certeza), de cristalização de ditaduras partidárias, com eliminação da liberdade de pensamento e a transformação dos representantes do povo em autômatos controlados por uma troika gremial.
Existe na sociologia política uma lei – a chamada Lei de Bronze das Oligarquias, estabelecida pelo alemão Michels, em 1905 – que diz: “todo partido político, seja ele de quadros ou de massa, tende a ser controlado por uma oligarquia que se perpetua e se eterniza no poder e o controla com mão de ferro”. Ao colocar aquele entendimento, como um porrete, nas mãos dos donos de partido, os tribunais multiplicaram por mil a sua capacidade de intimidar, discriminar, e eventualmente trucidar descontentes. Que não podem sequer pedir para sair.
Creio que estamos chegando ao cerne da questão: quem muda de partido no Brasil em geral o faz por alguma incompatibilidade desenvolvida na seqüência de movimentos inesperados da cúpula (alianças espúrias, desnaturação programática, exclusão, veto, manipulação, hostilidade pessoal) e não necessariamente para auferir benefícios, como o nosso preconceito pode fazer supor.
Se se pretende que a fidelidade seja uma categoria absoluta, há que rever todo o sistema eleitoral, proibindo-se as coligações e eventualmente introduzindo-se o voto distrital. Caso contrário, é aceitar a infidelidade como natural, inevitável ou inerente ao modelo e descriminalizá-la.
**Marcondes Gadelha é deputado federal pelo PSB da Paraíba. Contato: dep.marcondesgadelha@camara.gov.br.









